ESSA ENTREVISTA FOI UM REENCONTRO, 6 ANOS MAIS TARDE.
Foi muito engraçado poder entrevistar eles, pois nós os conhecemos em
2008, na festa de uma amiga, quando eles tinham acabado de voltar da
viagem e a gente ainda nem pensava em fazer a nossa volta ao mundo. Mas
eu lembro como fiquei impressionada com a história deles e passamos a
festa toda conversando e fazendo mil perguntas. Eu não me via fazendo
uma viagem de barco, mas achava a idéia de viajar por longo prazo
sensacional, ainda mais com os filhos, e aquela conversa nunca saiu da
minha cabeça. Agora fico feliz em compartilhar a história deles na
ViraVolta.
O MAIS DIFÍCIL É DECIDIR
Foi o Rodrigo quem começou com esse sonho de viajar de barco, mas
quando ele falou da idéia pra Márcia ela não topou muito, pois ela
queria que aquele sonho fosse dela também. Pra se animar, ela começou a
investigar mais sobre o assunto. Porém a vida vai levando a gente. Os
planos sempre eram postergados e o medo os prendiam à zona de conforto.
Os dois viviam momentos importantes em suas carreiras, como executivos
em multinacionais, e já estavam há alguns anos como expatriados.
Até o dia em que veio uma nova proposta de expatriação, que não
agradava muito ao casal. E foi bem nesse momento em que a Márcia se viu
fazendo parte do sonho. Depois de muito pesquisar, ela ficou interessada
em poder educar os filhos no barco, uma opção que traria uma
experiência incrível e os aproximaria muito. E foi aí que a Márcia, que
antes não curtia a idéia, passou a virar a maior defensora da causa,
tentando convencer o Rodrigo de que aquele era o momento certo pra
fazer. Ou eles faziam naquela hora ou nunca ia acontecer.
E foi assim, 10 anos depois do Rodrigo ter compartilhado com ela o seu sonho, que a decisão saiu.
Ele com 38 e ela com 36, criaram a coragem pra viver a aventura e se
apoiaram pra realizar o sonho, levando com eles os dois filhos, Nícolas
(de seis anos) e Rafael (de dois anos).
O DESAFIO
Após a decisão veio um novo desafio, o de conseguir realizar a
aventura em um barco. Um veleiro querido, que passou a fazer parte da
família, chamado
Cavalo Marinho. Os dois tinham feito
cursos de navegação, mas jamais tinham navegado longas distâncias. Eles
contaram que na primeira noite de navegação, saindo do porto de Paraty,
no Rio, pegaram a maior tempestade e o barco quase virou. No dia
seguinte eles estavam super estressados e se sentiam inseguros pra
continuar, fazendo com que eles quase desistissem do plano. Uma decisão
que mudaria tudo. E foi então que eles conheceram um navegador
experiente, que se propôs a navegar com eles por uns dias até que eles
pegassem mais experiência. Decisão acertada. Pois
tudo na vida é uma questão de prática e o Rodrigo já se sentia seguro pra dar até a volta ao mundo de barco.
O PLANO
Eles saíram sem um plano definido. Nas contas deles,
eles tinham dinheiro pra viajar por 1 ano e decidiriam seguir viagem
até onde o dinheiro desse. Mas quando eles chegaram no norte do Brasil,
perceberam que os gastos eram muito menores do que eles tinham previsto.
Eles gastavam cerca de US$ 1 mil por mês, incluindo
todos os gastos pra família toda, e quando fizeram a avaliação
financeira perceberam que poderiam viajar por muito mais tempo. E assim a
viagem foi pra dois anos, três anos, fazendo com que eles viajassem
pela costa até o norte da América do Sul, depois América Central e
Caribe.
Com três anos e meio eles tiveram que retornar ao Brasil, pois a mãe
da Márcia estava doente e precisava de sua ajuda. Mas afirmam que, se
não fosse por esse imprevisto, teriam viajado por muito mais tempo e
talvez até feito a volta ao mundo.
Os custos que eles tinham no barco eram infinitamente menores do que os custos em terra
e eles poderiam viver daquela forma por muitos anos. Um estilo de vida
que eles estavam completamente apaixonados. Eles afirmam que apenas 5%
do tempo representa navegação e que o restante do tempo eles estavam
atracados em algum lugar, curtindo a vida.
O CONTATO E A EDUCAÇÃO DOS FILHOS

Pra eles, ter tanto tempo pra passar com os filhos, conversar e contar
histórias criou um vínculo muito maior entre eles e momentos incríveis.
A Márcia optou por fazer uma educação a distância, chamada de “homeschooling”.
Esse é um conceito já conhecido em vários lugares do mundo, onde os
pais optam por educar seus filhos em casa e não em uma escola. Já que
eles estariam no barco, essa era uma opção perfeita. Mas como o conceito
ainda não era muito disseminado no Brasil, ela escolheu uma empresa
internacional, a
Calvert School,
que mandava os materiais e orientações na educação. Durante a semana,
ela passava três horas por dia com o filho mais velho, de seis anos, que
já estava no período de alfabetização, e apenas 30 minutos com o filho
mais novo, de dois anos, que fazia apenas atividades mais lúdicas. Pra
eles, esse forte contato com os filhos não tem preço e é algo que eles
jamais conseguiriam implementar na rotina louca que eles tinham antes da
viagem.
Ter vivido essa aventura foi uma oportunidade única de criar um vínculo ainda mais forte em família.
OS APRENDIZADOS DA EXPERIÊNCIA
Certamente passar tanto tempo em família em um espaço pequeno foi um
grande desafio, além de todos os novos desafios encontrados pela
realidade de se viver em um barco, que era um ambiente completamente
novo. Eles acreditam que é impossível não se transformar depois de fazer
uma longa viagem, pois as experiências vividas em uma aventura como
essa mexem muito com a nossa cabeça.
Viver tudo isso transformou suas vidas e trouxe muitos aprendizados:
- O questionamento de valores e estilo de vida
- Aprender a ter mais tolerância e a respeitar o espaço e os limites do outro
- Aprender a relevar mais e enxergar que pra tudo tem um lado bom
- Entender que tudo pode ser realizado e tudo é possível
- Enxergar que a vida pode ser mais simples
- Compreender que o dinheiro não é o mais importante pra felicidade
- Mudar a relação com o consumo, ele pode existir, mas deve ser mais leve e equilibrado
- Entender que não é preciso ter medo e ganhar mais auto confiança
- Não importa o que os outros pensam, é melhor fazer o que nos faz feliz
A VOLTA E A CARREIRA
A Márcia e o Rodrigo são um grande exemplo de que
viajar por longo prazo não acaba com a sua carreira.
Eles ficaram 4 anos fora do mercado e voltaram da viagem com mais de
40, mas a experiência ampliou a visão e os transformaram em
profissionais mais seguros.
Quando o Rodrigo voltou ele ficou um pouco receoso do como o mercado de trabalho enxergaria a sua experiência.
9 de 10 pessoas do mercado viram a viagem como uma coisa super positiva e de destaque, que o diferenciava de outros profissionais. Ele comenta no vídeo:
“a viagem é muito maior do que um MBA, maior do que qualquer coisa que você possa estudar em qualquer lugar do mundo”.
E eu entendo bem o que ele quer dizer com isso. Viajar por longo prazo
ensina coisas que nenhum estudo vai te ensinar, principalmente porque
ensina na prática e muitas vezes sem opções de teoria. Você está lá, de
cara com um problema ou desafio, e tem que resolver, querendo ou não,
tendo conhecimento ou não. E isso desenvolve habilidades incríveis na
gente.
Os dois tiveram ótimas recolocações no mercado, estão felizes com
suas carreiras e estão curtindo também a opção de estar em terra,
parados em um mesmo lugar, que também tem seus pontos positivos. Mas a
vontade de se jogar outra vez ainda existe e, pra eles, vai acontecer
outra vez no futuro.
A DICA DELES PRA QUEM TEM MEDO DE REALIZAR ESSE SONHO.
O medo se deve ao desconhecimento. O Rodrigo tem um perfil bem
conservador e pouco ousado e quando ele sonhava em fazer isso ele
acreditava que nunca seria capaz de realizar. Ele diz que ele é a maior
prova de qualquer um poderia fazer isso:
“Se eu fiz qualquer um faz”. Planeja e faz acontecer que é possível. Perseverança é o que faz a diferença.
A Márcia e o Rodrigo são mais um exemplo, de uma família padrão da
sociedade, que focava em suas carreiras, mas que acreditou e decidiu
viver um sonho e viram suas vidas transformadas de uma forma positiva
por essa experiência, inclusive em suas carreiras.
Dados da viagem
3 anos e meio no mar
Muitas aventuras
Família mais unida
SAIBA MAIS SOBRE SUAS HISTÓRIAS:
Créditos das fotos: Márcia e Rodrigo